O livro que trago hoje é uma boa pedida tanto para quem se interessa pela História do Brasil, como para quem gosta de literatura – e pra mim essa junção caiu como uma luva! Em O Crime do Cais do Valongo, a escritora e jornalista Eliana Alves Cruz, une recortes de jornais cariocas da primeira metade do século XIX com uma narrativa sobre o assassinato de um importante - e fictício - comerciante do Rio de Janeiro. Bernardo Lourenço Vianna é o nome desse personagem que enriqueceu, principalmente, com o tráfico transatlântico de escravos.
O leitor entra na história pelo olhar de Nuno que encontra na residência do falecido um maço de papel escrito por Muana, uma das escravas da casa. Dessa forma, há dois narradores no livro: os capítulos iniciam com o relato de Nuno que introduz alguma parte dos escritos de Muana.
Nuno é um homem livre, mulato e nascido no Brasil que herda do pai não só o local onde mora como também o gosto pelos livros. O sonho do nosso narrador é transformar sua casa em um combinado de livraria e taberna. Pelas partes de Nuno em O Crime do Cais do Valongo, o leitor se enreda por um lado mais leve da história. Com um tom um tanto jocoso, esse narrador transita nas ruas de um Rio de Janeiro fervilhante pós vinda da Família Real para o Brasil. Como mencionado antes, é por meio de Nuno que a narrativa começa. É ele quem fala primeiro do assassinato de Bernardo Vianna e o apresenta ao leitor.
Muana é um dos três escravos da casa do falecido. Nascida na aldeia de Lómuè no continente africano, ela faz parte de um dos povos que habitavam Moçambique, os Macua. Sua família inicia uma fuga ainda na África na tentativa de escapar dos caçadores de homens que alimentavam o tráfico de escravos. E ainda na África, Muana vê sua família ser destruída pela morte e pela loucura. Sozinha, ela se torna uma presa fácil para os comerciantes dos tumbeiros.
Pelas cartas de Muana, o leitor testemunha a parte mais densa da narrativa. À barbaridade do tráfico de escravos junta-se as violências cotidianas (as) nas quais os negros foram submetidos no Brasil. Em uma fala simples e dolorosa da personagem é possível ter um vislumbre da crueldade do infame comércio: “Sou uma macua-Lómuè... Isso não é importante para ninguém neste lugar onde me encontro, mas para mim é tudo. É a única coisa realmente minha.”
Por outro lado, é por Muana que as novas formas de viver dos escravos são apresentadas ao leitor. Mesmo com a diversidade étnica dos cativos, as sociabilidades – como as irmandades religiosas – foram essenciais para a sobrevivência dessa população. Além disso, a nossa narradora saber ler e escrever – era proibida aos escravos esse tipo de conhecimento – é elemento importante por dois motivos. O primeiro é o acesso a informações privilegiadas que puderam ajudar a ela e aos seus companheiros de casa; o segundo é que seus escritos são essenciais para o desenrolar do enredo. Da mesma forma, Muana representa a importância da fé na sabedoria ancestral como meio de tornar o viver mais leve. E é pela força dessa ancestralidade que a personagem opera as engrenagens de um ato de justiça.
Dados
Livro: O Crime no Cais do Valongo
Escritora: Eliana Alves Cruz
Ano de lançamento: 2023
Editora: Malê
Livro: O Crime no Cais do Valongo
Escritora: Eliana Alves Cruz
Ano de lançamento: 2023
Editora: Malê

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