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Teoria Geral do Esquecimento - José Eduardo Agualusa

Há alguns anos li A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, livro do angolano José Eduardo Agualusa. Lembro que à época não me evolvi muito com a narrativa e nem me empolguei tanto para falar sobre a leitura (para quem quiser saber mais sobre esse livro, tem um vídeo sobre ele no perfil do literatura com pão de queijo ). Mas com Teoria Geral do Esquecimento foi o total oposto: uma completa imersão que me desligava de tudo ao redor. O ponto de partida da narrativa é um fato verídico: uma portuguesa, Ludovica Fernandes Mano, enclausurou-se em um apartamento em Luanda à época da independência de Angola assim que percebeu a movimentação alterada nas ruas da capital.  Ali a personagem permaneceu durante vinte e tantos anos com a companhia de um cachorro sobrevivendo alheia ao mundo que a rodeava. Ludovica deixou vários escritos em papel e nas paredes e foi a partir desse material que o autor elaborou um roteiro para um filme que não chegou a ser filmado mas que serviu de base para o des...
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Em Agosto Nos Vemos - Gabriel García Márquez

Ler Gabriel García Márquez é sempre um prazer porque suas histórias sempre mexem muito comigo. Os amores retratados são quase sempre viscerais. Não dão sossego. Queimam por dentro. Acho que esse foi o elemento determinante para que eu me apaixonasse pela escrita de Gabo porque o primeiro livro que li dele foi Do Amor e Outros Demônios – e quem já leu esse sabe bem como são os sentimentos que ligam os protagonistas. Para além disso, há o estilo envolvente da escrita do autor e, claro, o realismo mágico. Em Agosto Nos Vemos, livro do qual trata este texto, é curto e com um enredo simples. Ana Magdalena, uma mulher na casa dos 40 anos, tem um ritual anual: todo 16 de agosto ela pega uma barca e segue até à ilha onde sua mãe foi sepultada para levar-lhe um maço de flores. Todos os anos ela viaja no mesmo horário, pega o mesmo táxi na ilha e compra as flores com a mesma florista. Tais repetições somadas à vida estável da protagonista – um casamento tranquilo, filhos criados e situação finan...

Noites Brancas - Fiódor Dostóiévski

Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, foi lançado em 1848, período anterior à prisão do autor na Sibéria (1849-1854), e muito provavelmente os tons mais otimistas presentes nesse livro são resultado de uma fase mais idealista do escritor. As obras mais famosas de Dostoiévski foram concebidas após o confinamento em Tobolsk e em nada lembram o tom mais romântico desta sua novela. A narrativa do livro limita-se a apenas quatro noites e se passa em uma época do ano na qual o sol se põe muito tarde e que recebe a denominação de noites brancas. Sozinho, esse elemento já concede à história uma atmosfera mais fantasiosa. Adicione a isso o protagonista ser mencionado apenas pela alcunha de Sonhador. Esboça-se, assim, um ar de quimera, quase que de delírio. O Sonhador perambula pelas ruas de São Petesburgo e, por ser muito solitário na cidade, tece com o casario uma relação quase de sociabilidade. Ele é atento às mudanças de cores das residências, aos moradores de algumas delas, à vida que ...

Ópera dos Mortos - Autran Dourado

Ópera dos Mortos chamou minha atenção pelo nome que carrega, e depois que li a sinopse tive a certeza de que eu gostaria muito da leitura. E assim foi: arrebatador. Com uma escrita lindíssima que parece mais uma dança, o mineiro Autran Dourado presenteia o leitor com uma história triste contada de uma forma poética. Quem lê sente as agruras dos personagens, mas é como se ao mesmo tempo o lirismo da escrita fizesse um carinho. O autor deixa bastante evidente no início do livro o jeito mineiro de contar uma história – o conhecido “causo” contado de forma muito tranquila e, geralmente, detalhada. Pode ser de assombração, de uma briga ou de uma história de família que é caso de Ópera dos Mortos. E é incrível como uma atmosfera mineira é transmitida pelas páginas. É como se durante a leitura o leitor fosse transportado para alguma cidade histórica com seu centro de ruas estreitas de paralelepípedos, Largos e igrejas. A escrita imagética ajuda na composição do momento histórico em que a na...

Inventário de Predadores Domésticos - Verena Cavalcante

  "Peço desculpas, de verdade. Eu sei que doeu." São com essas palavras que Verena Cavalcante encerra a seção de agradecimentos ao final do livro, e resolvi começar o texto com essa declaração da autora para que fique de aviso de que temas muito sensíveis são tratados ao longo dos 26 contos que compõem Inventário de Predadores Domésticos. As narrativas do livro são viscerais, cruas e deixam o leitor desconcertado a todo momento. É sempre um respiro fundo para dar conta de casos tão doloridos. As vozes que contam as histórias são em sua maioria infantis e, por isso mesmo, vêm em uma linguagem muito peculiar e marcada pela oralidade, além de carregada de regionalismos. Nos contos há uma mistura da inocência pueril e de medo profundo diante das situações violentas experenciadas pelos personagens. São infâncias marcadas pela pobreza, pela brutalidade, pelas consequências da falta de amparo e, principalmente, pelo abuso de quem deveria protegê-las. O medo que alguns pequenos ani...

Nós - Ievguêni Zamiátin

  O livro do texto da vez é um que você, leitor, certamente encontrará em listas sobre obras distópicas, embora, muito provavelmente, ele não estará entre as mais lembradas. Trata-se de Nós, escrito pelo russo Ievguêni Zamiátin entre os anos de 1920 e 1921 e publicado em 1924. No livro, uma espaçonave, a INTEGRAL, será lançada e o governo do Estado Único convida a quem quiser escrever para os povos siderais, que o faça para ser enviado. É desse ponto que o leitor começa a acompanhar a história do protagonista, D-503, que inicia um diário cuja finalidade é demonstrar a superioridade da estrutura social em que ele vive. [1] O Estado Único é uma forma de governo totalitária alcançada após a denominada Guerra dos Duzentos Anos, ao final da qual o Muro foi erguido para proteger os habitantes dessa nova ordem social dos selvagens imaginativos e com alma. Como você deve ter percebido mais acima, o protagonista não tem um nome, mas sim uma letra seguida de um número. E assim acontece ...

Os Perigos de Fumar na Cama - Mariana Enriquez

 Escrever – ou falar – de Mariana Enriquez é sempre um prazer para mim. Meu primeiro contato com a autora foi no livro de contos As Coisas que Perdemos no Fogo. Havia algo nas desconfortáveis narrativas que me prendia. Anos depois li o romance Nossa Parte de Noite que me arrebatou. Não sei bem como explicar a fascinação que a escrita de Enriquez exerce sobre mim. É um misto de espanto e curiosidade. Mariana não se encaixa no terror mais comum (já comentei aqui no blog um pouco acerca deste estilo quando escrevi sobre o livro Coelho Maldito de Bora Chung ). A argentina traz narrativas insólitas e incômodas que mesclam violências, crenças regionais e o grotesco – incluindo uma dose de escatologia – com o sobrenatural. E nesta linha que está o livro de doze contos Os Perigos de Fumar na Cama do qual tratarei neste texto. E, como quase toda publicação de contos, há uma heterogeneidade entre as histórias, por isso vou me limitar aqui aos que me chamaram mais a atenção.  Em “O Carri...