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Orgulho e Preconceito - Jane Austen

É uma verdade universalmente reconhecida que Orgulho e Preconceito é um dos romances românticos ingleses mais famosos. Jane Austen, com uma narrativa elegante, faz o leitor suspirar do lado de cá das páginas.

A bem da verdade, esse é outro caso de livro que ficou um longo tempo na estante – devo ter ele há uns 10 anos – e, assim como na saga do Senhor dos Anéis, eu vi o filme antes de ler o livro.


O recurso narrativo que engaja o livro é conhecido na literatura: um exemplo clássico do enemies to lovers (de inimigos a amantes). Mas, apesar de ser um mote comum, a autora trabalha, em camadas mais profundas, aspectos históricos e sociais dentro da narrativa. E esse é um dos elementos que abrilhanta ainda mais a história.


A protagonista Elizabeth Bennet e suas irmãs compartilham uma mesma questão com outras personagens de Austen: o casamento como forma de estabilidade social. A autora faz questão de frisar a crueldade e sexismo das leis de transmissão de herança na Inglaterra que deixava à míngua filhas e esposas - ela própria vivenciou essa sina pois não teve dote.


No caso de Longbourn, onde vive a família Bennet, a questão era ainda mais complicada porque a propriedade foi deixada ao pai de Lizzy como uma espécie de concessão, ou seja, o Senhor Bennet não era proprietário das terras. E no caso de seu falecimento já estava determinado para quem essa concessão passaria, e aqui entra em cena o pitoresco Senhor Collins. Dessa forma, nem a esposa nem as filhas herdariam alguma coisa. Nesse contexto, o leitor até consegue sentir compaixão pela Senhora Bennet que a todo custo tenta arranjar bons casamentos para as filhas.



Além da questão do matrimônio como forma de estabilidade social - e como no caso de Lizzy, também de ascensão social - há um elemento histórico que perpassa a construção das personagens: o debate das correntes de pensamento no final do século XVIII acerca do campo de atuação feminino. No prefácio da edição da Penguin, a professora Vivien Jones traça uma linha do tempo e insere Orgulho e Preconceito na discussão que ocorria entre progressistas e conservadores [1] . De forma bem, bem simples e resumida, de um lado Mary Wollstonecraft defende a emancipação da mulher por meio da educação como processo de aprimoramento pessoal que ressoaria também no espaço público. Do outro lado, Hanna More tinha um pensamento tradicional em relação ao papel da mulher na sociedade entendendo que a ação feminina deveria se restringir às regras dos manuais de decoro e comportamento, como aquelas que exaltavam a delicadeza “própria do sexo feminino”. E foi durante esse debate que Austen concebeu Orgulho e Preconceito. [2]  


Voltando agora à trama do livro aponta-se um elemento que torna Orgulho e Preconceito, lançado lá em 1813, tão significativo ainda hoje: a história de amor. Ainda que seja uma linha de amor romântico, é possível ver em algumas ações e pensamentos de Lizzy uma segunda linha mais racional sobre os relacionamentos. A própria atitude do protagonista em relação ao Senhor Darcy de não cair de amores simplesmente por ele ser ao equivalente atual de um “bom partido”, já a insere em outro patamar em relação às demais personagens femininas que sonham com o vestido de noiva quando veem Darcy. A espontaneidade e vivacidade do protagonista colaboram com a imagem de uma nova heroína romântica menos abobalhada. Pode-se pensar que a construção dessa personagem seria consequência da nova mentalidade sobre o papel da mulher, apesar que de uma maneira um tanto tímida, uma vez que o casamento era ainda entendido como o objetivo principal da vida da mulher.


A história de amor de Lizzy e Darcy conduz o leitor pelas páginas. Os demais personagens não “sobram” na narrativa na medida em que são importantes para a composição dos outros núcleos que interagem com o casal protagonista e servem para explicitar questões sociais e históricas. Para finalizar, uma confissão: como uma boa romântica que sou, esse livro me arrancou algumas lágrimas. 




Dados:

Livro: Orgulho e Preconceito 

Autora: Jane Austen

Editora: Penguin Classics Companhia das Letras

Ano: 2011



[1] Sugiro fortemente a leitura do prefácio para a melhor compreensão da construção das personagens femininas em Orgulho e Preconceito.

[2] Houve um manuscrito inicial denominado “Primeiras Impressões” que não foi aceito para publicação e serviu de base para a história que hoje conhecemos.

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