Pular para o conteúdo principal

Resenha: Crônica da Casa Assassinada - Lúcio Cardoso

 Descobri Crônica Da Casa Assassinada há um bom tempo. Eu estava em Curvelo, cidade natal do autor, e diante de uma casa que eu nem lembro se era da família Cardoso, mencionaram o título do livro que me fascinou. Na época não havia uma nova edição do livro e foram alguns anos ainda até eu ter a obra em mãos.

Assim que adquiri meu exemplar coloquei ali na estante onde ficou por um bom tempo. Iniciei a leitura uma ou duas vezes, mas não passei do primeiro capítulo. Acho que não era o momento nosso, meu e do livro. Passados mais de quatro anos na minha estante, finalmente, consegui realizar a leitura.

Lançada em 1959, nesta obra monumental de Lúcio Cardoso acompanhamos a decadência da casa dos Meneses, um exemplo da aristocracia falida que vive apenas do peso que o nome da família teve em tempos antigos. 

A história se passa principalmente na chácara da família, em uma vila fictícia, no interior de Minas Gerais. Não há datas explícitas no texto mas, ao que tudo indica, parece se passar na década de 1950 e seguinte.


Edição da Editora Civilização Brasileira de 2018


O autor utiliza como recurso de escrita cartas e diários dos personagens. Dessa forma, não há linearidade temporal nem narrativa. O que temos são diferentes relatos de alguns episódios que ocorrem na chácara dos Meneses. Este artifício é interessante porque faz com que o leitor observe os diferentes ângulos e vá montando a história como um quebra cabeças.

A pacata chácara da família é abalada com a chegada de Nina, vinda do Rio de Janeiro, recém casada com um dos Meneses. Esta personagem representa uma das rupturas no modo de vida da casa. Além dela, outros dois personagens engendram uma quebra da conduta que se espera de uma família nobre: o irmão mais novo dos Meneses, que transgride o papel de gênero e uma tia já falecida que não aceitava o papel passivo designado à mulher.

No livro, as severas críticas de Cardoso são direcionadas ao conservadorismo atávico da sociedade, especialmente a mineira, com sua conduta pautada pela igreja Católica e pelo preconceito contra os indivíduos que não se encaixam nas normas e papéis preestabelecidos.

A Crônica da Casa Assassinada é um daqueles livros que marcam o leitor. Não é possível sair dele ileso. Além de não ser uma leitura fácil por conta do estilo, apresenta temas delicados, íntimos, de teor psicológico forte.

“Quem não conhece a tristeza não pode saber o que era esse esvaziamento do ser, essa ausência de si mesmo, esse quieto que não significa a paz, mas o sossego de regiões condenadas, e que apesar de tudo ainda não conhecem a morte.” (p. 370)


Dados
Livro: Crônica da Casa Assassinada
Autor: Lúcio Cardoso
Ano de lançamento: 1959
A edição lida para a resenha é da Editora Civilização Brasileira de 2018






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Orgulho e Preconceito - Jane Austen

É uma verdade universalmente reconhecida que Orgulho e Preconceito é um dos romances românticos ingleses mais famosos. Jane Austen, com uma narrativa elegante, faz o leitor suspirar do lado de cá das páginas. A bem da verdade, esse é outro caso de livro que ficou um longo tempo na estante – devo ter ele há uns 10 anos – e, assim como na saga do Senhor dos Anéis, eu vi o filme antes de ler o livro. O recurso narrativo que engaja o livro é conhecido na literatura: um exemplo clássico do enemies to lovers (de inimigos a amantes). Mas, apesar de ser um mote comum, a autora trabalha, em camadas mais profundas, aspectos históricos e sociais dentro da narrativa. E esse é um dos elementos que abrilhanta ainda mais a história. A protagonista Elizabeth Bennet e suas irmãs compartilham uma mesma questão com outras personagens de Austen: o casamento como forma de estabilidade social. A autora faz questão de frisar a crueldade e sexismo das leis de transmissão de herança na Inglaterra que dei...

Resenha: Oração para Desaparecer - Socorro Acioli

Oração Para Desaparecer é o trabalho mais recente da escritora brasileira Socorro Acioli e nele vemos toda a potência da autora. Digo isso porque li A Cabeça de Santo, primeira obra publicada de Acioli e fruto de uma oficina com García Márquez, e Oração Para Desaparecer em um intervalo curto de tempo. A evolução na escrita da autora é gigante entre uma obra e outra – e isso não é nenhum mérito em relação ao primeiro livro. É que a escrita de Acioli em sua obra mais recente é esculpida com esmero e presenteia o leitor com uma história que mexe com as emoções.   Aqui, acompanhamos a personagem Cida - que também é Joana - que desaparece no interior do nordeste do Brasil e reaparece em Portugal na vila com o mesmo nome nos dois lados do Atlântico, Almofala. Nosso protagonista “morre”, ressuscita e não consegue lembrar de sua existência pregressa. Ao caminharmos pela leitura descobrimos que ela é uma ressurecta, alguém que morreu mas que foi escolhido para voltar à vida por ter alguma q...

Ópera dos Mortos - Autran Dourado

Ópera dos Mortos chamou minha atenção pelo nome que carrega, e depois que li a sinopse tive a certeza de que eu gostaria muito da leitura. E assim foi: arrebatador. Com uma escrita lindíssima que parece mais uma dança, o mineiro Autran Dourado presenteia o leitor com uma história triste contada de uma forma poética. Quem lê sente as agruras dos personagens, mas é como se ao mesmo tempo o lirismo da escrita fizesse um carinho. O autor deixa bastante evidente no início do livro o jeito mineiro de contar uma história – o conhecido “causo” contado de forma muito tranquila e, geralmente, detalhada. Pode ser de assombração, de uma briga ou de uma história de família que é caso de Ópera dos Mortos. E é incrível como uma atmosfera mineira é transmitida pelas páginas. É como se durante a leitura o leitor fosse transportado para alguma cidade histórica com seu centro de ruas estreitas de paralelepípedos, Largos e igrejas. A escrita imagética ajuda na composição do momento histórico em que a na...