Acho difícil falar de livros
consagrados. Parece que tudo já foi dito e que não há nada a acrescentar. Mas A
Mão Esquerda da Escuridão é um livro que me fascina tanto que eu não poderia
deixar de trazê-lo.
Publicado em 1969 pela escritora Ursula K. Le Guin, A Mão Esquerda da Escuridão foi contemplado com dois importantes prêmios, Hugo e Nebula, o que demonstra a relevância da obra no meio literário. As discussões levantadas na narrativa são conhecidas da nossa atualidade e o fato de serem ainda debatidas é mais um ponto que corrobora a significância do livro.
Algumas narrativas de Le Guin estão inseridas no Ciclo de Hainish - incluindo a abordada neste pitaco literário – que se passa em um momento futuro no qual todos os mundos humanos foram colonizados por Hain, planeta que é o centro de uma confederação intergalática, o Ekumem. Os personagens desses livros são interessantes porque são humanos modificados pela engenharia genética ou pelas condições locais do planeta.
A Mão Esquerda da Escuridão se passa no planeta Gethen no qual Genly Ai, um enviado da Terra, tem a missão de convencer os governantes dali a se unirem ao Ekumem. Mesmo munido de informações coletadas por pessoas que estiveram ali antes dele, Genly tem dificuldades para compreender algumas características daquela sociedade.
Os gethenianos apresentam uma peculiaridade: eles não têm gênero definido. Na maior parte do mês, eles ficam no estado de somer, sexualmente inativos. Em ciclos que variam de 26 a 28 dias, mudanças hormonais estimulam a entrada na fase sexualmente ativa até atingir o kemmer, que é quando o indivíduo encontra outro no mesmo estágio e um novo estímulo hormonal faz com que um desenvolva os caracteres sexuais femininos e o outro, os masculinos. Se ocorrer uma concepção, a pessoa permanece durante o período gestacional e o de lactação com o corpo feminino. Após esse período, volta a ser um corpo andrógino. Essa ambissexualidade dos habitantes de Inverno, ainda que conhecida por relatos, deixa Genly um tanto perturbado ao mesmo tempo em que ele é visto como devasso pelos gethenianos, uma vez que está em constante estado de kemmer.
No capítulo 7, uma das Investigadoras que visitaram o planeta, faz uma análise sobre as possíveis causas da mutação dos moradores de Gethen. Porém, mais interessantes ainda são as conclusões sobre os efeitos sociais e comportamentais da singular sexualidade daquele povo. Vou aqui puxar dois que se destacam para mim: não há violência sexual em Inverno uma vez que a relação entre os kemmerings só acontece com o consentimento de ambos; e, em relação ao mercado de trabalho, não há o risco de uma mãe ser mandada embora ou se sobrecarregar com as tarefas domésticas e o emprego uma vez que qualquer um pode gerar um filho. “Fardo e privilégio são compartilhados de modo bem igualitário”.
Ursula Le Guin, além de autora, era antropóloga e isso faz toda a diferença ao trazer mais profundidade aos escritos dela. Na introdução d’A Mão Esquerda da Escuridão, ela mesma expõe uma discussão interessante sobre o “lugar” de seus livros dentro da ficção científica. A autora entende suas obras como um experimento mental que descreve o mundo com um quê de imaginação. Assim, Le Guin usa a liberdade criativa e as possibilidades da ficção científica para provocar reflexões acerca da política, religião e papeis de gênero. Genly só entende a sociedade getheniana quando se despe da sua própria visão de mundo e se abre à possibilidade de reconhecer a alteridade de Therem Harth rem ir Esrtraven, personagem que encarna toda a filosofia de Inverno e que serve de guia ao enviado da Terra em uma das nações do planeta, Karhide. É também Estravem quem traz uma das passagens mais bonitas da narrativa: “Na [religião] Handarra talvez estejam menos cientes da lacuna entre os homens e os animais, ocupando-se mais das semelhanças, dos elos, do todo do qual todas as coisas vivas são uma parte.”
E assim finalizo deixando como dica uma frase que sempre digo: leiam Ursula K. Le Guin.
Dados:
Livro: A Mão Esquerda da Escuridão
Autora: Ursula K. Le Guin (tradução de Susana L. de Alexandria)
Ano de lançamento: 1969 (a edição lida é de 2014)
Editora: Aleph

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