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Ópera dos Mortos - Autran Dourado

Ópera dos Mortos chamou minha atenção pelo nome que carrega, e depois que li a sinopse tive a certeza de que eu gostaria muito da leitura. E assim foi: arrebatador. Com uma escrita lindíssima que parece mais uma dança, o mineiro Autran Dourado presenteia o leitor com uma história triste contada de uma forma poética. Quem lê sente as agruras dos personagens, mas é como se ao mesmo tempo o lirismo da escrita fizesse um carinho.

O autor deixa bastante evidente no início do livro o jeito mineiro de contar uma história – o conhecido “causo” contado de forma muito tranquila e, geralmente, detalhada. Pode ser de assombração, de uma briga ou de uma história de família que é caso de Ópera dos Mortos. E é incrível como uma atmosfera mineira é transmitida pelas páginas. É como se durante a leitura o leitor fosse transportado para alguma cidade histórica com seu centro de ruas estreitas de paralelepípedos, Largos e igrejas.

A escrita imagética ajuda na composição do momento histórico em que a narrativa se insere, o Brasil Imperial. E nesse sentido é notório o zelo que Autran Dourado tem quando apresenta sem pedantismo fatos como a queda do Ciclo do Ouro em Minas ou as desavenças políticas do período, mas não sem crítica.


Em Ópera dos Mortos, o leitor acompanha a história da família Honório Cota principalmente na figura de Rosalina, a terceira geração. Há uma digressão para explicar a origem da fortuna da família começando pelo avô, Lucas Procópio, homem bruto de dar medo nos moradores da cidade: uma figura sem escrúpulos e sem moral. Construiu uma boa casa que seu filho, João Capistrano, aumentou transformando-a em um sobrado que fica como herança para Rosalina. Assim como no livro Crônica da Casa Assassinada, a edificação é também um personagem que funciona como um espelho da decadência econômica e moral dos Honório Cota.


Os quatro primeiros capítulos apresentam os personagens e é nesta parte do livro que o narrador descreve um uma prosa muito mineira os moradores, a cidade, o sobrado e seus habitantes vivos e mortos. Nos demais capítulos, a narrativa toma outro tom. O fluxo de pensamento dos personagens guia o leitor, muitas vezes de maneira sufocante, através de confissões e memórias melancólicas.


Rosalina vive na casa, que teve um passado de festas e riqueza, apenas com uma empregada muda, Quiquina. A herdeira ganha a vida fazendo flores de plástico e recebe parte da renda de um armazém erguido pelo avô e um compadre. Ela nunca sai de casa porque houve uma desavença entre a família e a cidade e, a partir disso, Rosalina se fecha completamente dentro de casa e dentro de si sem querer nenhum contato com os demais moradores. E aqui entra em cena José Feliciano/Juca Passarinho, um forasteiro vindo dos lados de Paracatu, que chega na cidade e muda os rumos do sobrado dos Honório Cota.


Ópera dos Mortos é uma leitura intensa e que pede presença do leitor. As construções frasais, o lirismo – achei uma lindeza “o tempo se move em barroco”, os diálogos sem travessões exigem atenção e sensibilidade. Este livro de Autran Dourado foi selecionado pela Unesco para compor a Coleção de Obras Representativas da Literatura Universal com muita razão. Foi uma grata surpresa encontrar essa preciosidade de um autor que eu desconhecia.

 



Dados:

Livro: Ópera dos Mortos

Autor: Autran Dourado

Ano de lançamento: 1967

Ano de publicação da edição lida: 2022

Editora: Harper Collins

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