O ato de escrever e criar uma história é admirável. Arquitetar todo um universo com mitologia, nomenclatura e demais elementos de um mundo abstrato, é ainda mais surpreendente e engenhoso. Um exemplo disso é o livro de César Augusto Pereira, O Filhote e a Maçã, que ao que tudo indica é o primeiro de uma trilogia que vai narrar as aventuras dos habitantes de Ventre.
No livro, dividido em cinco arcos mais prólogo e epílogo, o leitor acompanha a história de Nuiak, um guepardo adolescente que encontra na floresta de Arvoreiro Acima um artefato desconhecido para ele e para os membros do clã ao qual pertence. Embora exista uma lenda sobre um fruto sagrado – capaz de curar todo mal, físico ou mental, bem como de conceder ao seu portador a resposta para qualquer pergunta –, os anciãos do seu grupo incubem o felino de levar o objeto a outro local de Ventre para que possa ser examinado e, dessa forma, esclarecer do que se trata. Deste ponto em diante o leitor começa a seguir duas narrativas distintas: a saga de Nuiak e os acontecimentos em Arvoreiro Acima.
O protagonista parte para sua tarefa e faz pelo caminho dois amigos que serão indispensáveis para o cumprimento de sua missão: Patôncio, um pato cientista que concede ao leitor momentos de boas risadas, e Coral, uma hábil guerreira do reino aquático. Já em Arvoreiro Acima, os acontecimentos têm outro tom. Há uma conspiração que intenta destruir o povoado de maneira brutal. O leitor assiste à criação do Levante da Garra Vermelha com um aperto no peito tanto pela crueldade de seus líderes como pela forma como os membros são recrutados. E não se engane: apesar da antropomorfização dos personagens conferir uma atmosfera lúdica, a história é mais adulta com direito à cenas fortes de luta. Outro elemento nesse sentido é que o autor não se prende à “finais felizes” e traz desfechos de personagens que pegam o leitor de surpresa e com lágrimas nos olhos.
Toda uma mitologia foi elaborada em O Filhote e a Maçã – etnias, língua, costumes, crenças – e esse cuidado na construção da cosmologia leva o leitor a uma imersão dentro daquele universo. Há também passagens fortemente influenciadas pela cultura oriental; as artes marciais praticadas pelos personagens e os diálogos com pensamentos filosóficos enriquecem a leitura, como em uma das falas de Sora com seu filho, Nuiak: “Potencial que todos temos de brilhar, Nuiak. Aqueles que buscam entender o que não sabem com clareza, que querem a verdade, dolorida ou não, e a praticam terão uma vida estupenda pela frente. Vitoriosos dos próprios medos.”
Um ponto que merece destaque em O Filhote e a Maçã é que o autor foge do pensamento dualista – outro elemento da cultura oriental –, principalmente na construção dos personagens. César Pereira não se limita a demonstrar apenas as virtudes de Nuiak e as falhas de seu antagonista, Rebel. Pelo contrário. Ele aponta as complexidades dos personagens e não subestima o leitor.
Livro: O Filhote e a Maçã
Autor: César Augusto Pereira
Ano de lançamento: 2025
Editora: Appris

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