O livro do texto da vez é um que você, leitor, certamente encontrará em listas sobre obras distópicas, embora, muito provavelmente, ele não estará entre as mais lembradas. Trata-se de Nós, escrito pelo russo Ievguêni Zamiátin entre os anos de 1920 e 1921 e publicado em 1924.
No
livro, uma espaçonave, a INTEGRAL, será lançada e o governo do Estado Único convida
a quem quiser escrever para os povos siderais, que o faça para ser enviado. É
desse ponto que o leitor começa a acompanhar a história do protagonista, D-503,
que inicia um diário cuja finalidade é demonstrar a superioridade da estrutura
social em que ele vive.[1]
O Estado
Único é uma forma de governo totalitária alcançada após a denominada Guerra dos
Duzentos Anos, ao final da qual o Muro foi erguido para proteger os habitantes
dessa nova ordem social dos selvagens imaginativos e com alma. Como você deve
ter percebido mais acima, o protagonista não tem um nome, mas sim uma letra
seguida de um número. E assim acontece com os demais personagens que fazem
parte da história de Nós. Tal artifício tem como objetivo elevar a ideia da
coletividade em detrimento da individualidade. No mesmo sentido segue o uso dos
unifs, que como o próprio termo sugere, trata-se de uma roupa igual para
todos cuja única diferença é a marcação do “nome” de cada um na vestimenta.
A sociedade
de Nós é regida pelo pensamento lógico e pela linearidade histórica. Eles estão
vivendo o auge da organização humana: a racionalidade pura é o mais alto grau
de refinamento possível. Zamiátin insere no texto descrições que indicam isso
como as ruas simétricas e limpas, o céu sempre azul sem nuvem alguma. É o
taylorismo aplicado à vida com a mecanização do trabalho, das relações e até
mesmo da alimentação.
Tudo em
ordem. Nada fora do lugar. Por isso mesmo, os habitantes do Estado Único têm o
dia rigorosamente ordenado pela Tábua das Horas, um tipo de relógio que regula as
atividades diárias, entre as quais há a Hora Pessoal. Neste período do dia, que
é o mesmo para todos, o cidadão é “livre” para fazer o que quiser: caminhar,
dormir, ler, ter relações sexuais. É este o momento do dia no qual as cortinas
dos apartamentos de vidro podem ser baixadas – sim, é isso mesmo: os imóveis
são todos de vidro. Na Hora Pessoal vê-se o nível de burocratização e regulação
estatal: para o ato sexual é preciso adquirir o talão rosa que designa com quem
a pessoa terá a relação. De posse do tíquete, o cidadão entra em contato com o
outro para o agendamento. Além disso, a reprodução também é sistematizada pelo
Estado Único. Nenhuma mulher pode engravidar sem o consentimento do governo.
Por trás dessa sociedade tem-se a figura do Benfeitor, “eleito” uma vez por ano no Dia da Unanimidade. Aqui peço licença para uma citação um pouco longa, talvez, mas bastante ilustrativa: “Sem dúvida, isso não é parecido com as eleições confusas e desorganizadas dos antigos, quando o resultado das eleições sequer era conhecido de antemão. Construir um governo sobre casualidades inteiramente incalculáveis, às cegas – o que pode ser mais sem sentido? (...) As próprias eleições têm um significado mais simbólico: recordar que somos um organismo único, poderoso, de milhões de células.” Essa passagem é um dos exemplos em que o protagonista faz comparações entre o Estado Único e o arcaico Estado Humanitário que ainda resiste do lado de fora do Muro.
O
Benfeitor é o todo poderoso que tem entre suas prerrogativas a de julgar os
delitos cometidos pelo cidadão, entre eles o “desenvolvimento” da alma e da
“doença” da imaginação. Esses dois crimes representam perigo e podem causar uma
desordem social. Quando D-503 percebe que está na iminência de cometer tais
atos ele se volta à logica matemática como uma maneira de tentar se afastar dos
riscos. O protagonista apaixona-se por um outro número, I-330, uma mulher que o
instiga a pensar sobre as regras que regem a sociedade em que vivem[2].
Ora, se a mecanização das relações, quaisquer sejam, é a regra, não há nenhum
tipo de ternura que conecte os cidadãos. Os vínculos são estritamente práticos atendendo
apenas às demandas necessárias para o funcionamento da sociedade. O afeto,
portanto, é desprezado pois é entendido como um resquício dos homens selvagens
da época do Estado Humanitário.
Zamiátin
participou da Revolução de Outubro mas, descontente com os rumos que o
bolchevismo tomava da Rússia, rompeu com o partido. A partir disso, seus
escritos foram proibidos de serem publicados e circular até que em 1931 o autor
escreve uma carta à Stálin solicitando permissão para deixar o país. Ele
consegue a façanha e muda-se para a França onde falece em 1937. Nós foi lançado
no idioma russo muitos anos depois da morte de Zamiátin e sua publicação na
União Soviética foi apenas em 1988.
Sem
dúvidas, Nós influenciou muitas distopias conhecidas, como Admirável Mundo
Novo, Laranja Mecânica e 1984. Vi também alguns pontos que se conectam a O
Conto da Aia. Apesar de ter achado uma leitura pouco fluida, acredito para quem
– assim como eu – gosta do tema, trata-se de uma leitura indispensável.
Dados:
Livro:
Nós
Autor:
Ievguêni Zamiátin
Tradutora:
Gabriela Soares
Ano da edição lida para esse texto: 2017
Editora: Aleph
[1] A
chamada do jornal Gazeta do Estado, na página 16 do livro, lembra bem a
desculpa dos europeus para a dominação dos povos ameríndios: “Espera-se
submeter ao jugo benéfico da razão aos seres desconhecidos (...) que
possivelmente ainda se encontram em estado selvagem de liberdade. Se não
compreenderem que levamos a eles a felicidade matematicamente infalível, o
nosso dever é obrigá-los a serem felizes.”
[2]
Vê-se aqui uma clara influência para Julia e Winston em 1984 de George Orwell

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