"Peço desculpas, de verdade. Eu sei que doeu." São com essas palavras que Verena Cavalcante encerra a seção de agradecimentos ao final do livro, e resolvi começar o texto com essa declaração da autora para que fique de aviso de que temas muito sensíveis são tratados ao longo dos 26 contos que compõem Inventário de Predadores Domésticos.
As narrativas do livro são viscerais, cruas e deixam o leitor desconcertado a todo momento. É sempre um respiro fundo para dar conta de casos tão doloridos. As vozes que contam as histórias são em sua maioria infantis e, por isso mesmo, vêm em uma linguagem muito peculiar e marcada pela oralidade, além de carregada de regionalismos. Nos contos há uma mistura da inocência pueril e de medo profundo diante das situações violentas experenciadas pelos personagens. São infâncias marcadas pela pobreza, pela brutalidade, pelas consequências da falta de amparo e, principalmente, pelo abuso de quem deveria protegê-las.
O medo que alguns pequenos animais causam, como insetos e outros artrópodes, é utilizado aqui em uma escala aumentada. A ideia de um predador doméstico vai ao encontro das pesquisas sobre a violência contra crianças e adolescentes que demonstram que a maior parte dos crimes ocorre dentro de casa e são cometidos por pessoas do convívio das vítimas. Daí a epígrafe que prepara o leitor: “a infância é o molde dos monstros” que se contrapõe à ideia dessa fase da vida como um momento sempre idílico, livre de qualquer mal.
Quase todas as meninas, quando entram na adolescência, percebem a diferença do olhar masculino para com elas. Lembro muito bem que eu atravessava a rua diante de bares, construções ou grupos de homens. Abaixava a cabeça e andava o mais rápido possível como se isso me deixasse invisível diante daqueles olhares que me perscrutavam. O conto Picada expressa esse momento: quando uma menina entende que passou a ser um alvo, e, em Diário, vê-se um desdobramento ainda mais triste disso.
Em Shopping uma criança se perde de sua mãe e cai em uma armadilha vil. A Voz Da Minha Mãe explora a violência praticada contra mulheres nas torturas durante a Ditadura Militar no Brasil. Açúcar Vermelho resgata a brutalidade do período da escravidão e Os Olhos Da Bisavó trazem a repetição da violência doméstica ao longo das gerações.
Verena Cavalcante está entre as autoras latinas que exploram o horror das violências cotidianas mesclado com o sobrenatural. O grito de desespero não é oriundo de um pavor transcendente, mas sim do medo real e cotidiano consequente da perversidade humana. Sua escrita, porém, tem mais elementos da realidade que do oculto.
Concluir a leitura de Inventário de Predadores Domésticos foi como finalizar o filme O Mal Que Nos Habita. Fica um gosto amargo na boca e aquela sensação de impotência frente à crueldade do mundo. Um nó no estômago que nos acompanha por dias. Infelizmente, enquanto lia o livro e iniciei este texto vieram à tona os arquivos do Caso Epstein, e mesmo sabendo que as narrativas de Verena Cavalcante são baseadas no cotidiano, achei de uma sincronia macabra entre ficção e realidade.
Dados
Livro: Inventário de Predadores Domésticos
Autora: Verena Cavalcante
Ano: 2021
Editora: DarkSide

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