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Noites Brancas - Fiódor Dostóiévski

Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, foi lançado em 1848, período anterior à prisão do autor na Sibéria (1849-1854), e muito provavelmente os tons mais otimistas presentes nesse livro são resultado de uma fase mais idealista do escritor. As obras mais famosas de Dostoiévski foram concebidas após o confinamento em Tobolsk e em nada lembram o tom mais romântico desta sua novela.

A narrativa do livro limita-se a apenas quatro noites e se passa em uma época do ano na qual o sol se põe muito tarde e que recebe a denominação de noites brancas. Sozinho, esse elemento já concede à história uma atmosfera mais fantasiosa. Adicione a isso o protagonista ser mencionado apenas pela alcunha de Sonhador. Esboça-se, assim, um ar de quimera, quase que de delírio.


O Sonhador perambula pelas ruas de São Petesburgo e, por ser muito solitário na cidade, tece com o casario uma relação quase de sociabilidade. Ele é atento às mudanças de cores das residências, aos moradores de algumas delas, à vida que pulsa pela cidade. Nessas andanças o protagonista divaga pelos pensamentos apresentando ao leitor sua visão de mundo utópica.


Em uma das caminhadas o protagonista conhece Nástienka. A beleza que a melancolia concedia à moça encoraja o Sonhador a aproximar-se. Nástienka se sentia triste porque aguardava pelo retorno do homem amado. Eles haviam se conhecido na pensão de propriedade da avó da moça e o rapaz prometera-lhe que voltaria um ano depois com melhores condições financeiras para que se casassem. Contudo, o homem ainda não regressara.


Do encontro do Sonhador com Nástienka surge uma relação intensa mas com interesses distintos. O protagonista apaixona-se perdidamente pela moça que, por sua vez, vê no Sonhador um amigo, um ouvinte para suas frustrações e tristezas diante da demora do retorno de seu amor.


Como é típico dos livros de Dostoiévski, as falas são bastante intensas apresentando ao leitor a profundidade dos personagens. Porém, ainda que seja uma visão individual, muitas vezes abarcam uma consciência coletiva. Da visão idealizada da vida aos rompantes de sentimentalismo das conversas do Sonhador com Nástienka, há passagens de muita beleza. E, apesar dos devaneios do protagonista, algumas falas são muito lúcidas: “sente-se que ela, essa fantasia inesgotável, finalmente se cansa, enfraquece uma tensão eterna, pois você amadurece, abandona seus antigos ideais: estes se desfazem em pó, em pedaços; se não há outra vida, então é preciso construí-la a partir desses pedaços.”


Noites Brancas é uma boa maneira de começar a ler as obras de Dostoiévski porque, apesar do mencionado tom mais romântico da obra – e veja bem que isso não é um defeito –, já apresenta ao leitor a angústia dos personagens, característica tão marcante do autor, e como ela se expressa por meio de solilóquios que conduzem quem está diante das páginas por uma espiral de reflexões.



Dados

Livro: Noites Brancas

Autor: Fiódor Dostoiévski

Ano de lançamento: 1848

Tradutor: Nivaldo dos Santos

Ilustrações: Livio Abramo

Ano da edição lida: 2009

Editora: 34

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