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Mostrando postagens de setembro, 2026

Assim na Terra Como Embaixo da Terra - Ana Paula Maia

Começo esse texto dizendo que gostaria muito de ver o livro Assim na Terra Como Embaixo da Terra transformado em um longa-metragem. Tive uma experiência muito gráfica do livro da escritora Ana Paula Maia e do início ao final da leitura um filme passou na minha mente.   O livro Assim na Terra Como Embaixo da Terra, finalista do Prêmio Booker Prize 2026, mescla o sobrenatural com uma realidade palpável. A narrativa desenvolve-se dentro de uma colônia penal que está prestes a ser fechada em um espaço-tempo não identificado onde restam menos de 10 detentos, um policial e um administrador. Um dos elementos gráficos mencionado acima aparece logo no início quando Bronco Gil, um dos presos, chega com um corpo de javali. Toda a cena e a conversa com Melquíades, o administrador, demonstram a familiaridade com a violência e a morte. Tudo muito vívido.   Os sujeitos do local, os presos e os outros dois, estão aguardando a chegada de um enviado da Justiça que fará uma avaliação da colônia...

Redemoinho Em Dia Quente - Jarid Arraes

Redemoinho Em Dia Quente, da autora brasileira Jarid Arraes, reúne protagonistas mulheres e levanta questões que ultrapassam a região do Cariri, interior do Ceará, palco de todas as histórias. Das diversas formas de violência aos estereótipos, as personagens apresentam debates atuais sobre estruturas bastante antigas. Exemplo emblemático  é o conto Gesso em que Doralice vive um relacionamento com um homem violento e durante uma vigília aos pés de uma Nossa Senhora, recebe um aviso da santa de que iria morrer pelas mãos do companheiro. O artificio que Doralice encontra para fugir da situação situa-se entre a fé e a materialidade dessa fé e com um desfecho bastante pertinente. Nas diferentes facetas abordadas no livro, uma me cativou de forma especial. No conto Voz, Janaína é uma pessoa intersexo que desde pequena sofre por ser quem é. A voz e performance de Silvio Santos aos domingos sempre foram a alegria da protagonista ao passo que ela tinha que calar a própria voz para tentar so...

Nesse Corpo de Água Doce - Priscila Faria

“As palavras compõem um mundo muito habitável” é uma frase de Michèle Petit, no livro Somos Animais Poéticos, em que a autora aborda sobre o poder da arte para auxiliar a lidar com questões emocionais e psicológicas delicadas. Nesse sentido, tanto escritor quanto leitor, podem fazer uso das palavras – escritas e lidas, respectivamente – como uma maneira de elaborar processos internos.  No decorrer da leitura de Nesse Corpo de Água Doce, da poeta Priscila Faria, lembrei muito das palavras de Petit. Em seu livro de estreia, Faria traz poemas que tratam de emoções difíceis. E, confesso, a leitura mexeu comigo em diversos níveis. Naveguei devagar pelas páginas porque algumas delas trouxeram lembranças agitando águas paradas em mim das quais um cheiro desagradável subiu e do balanço das memórias que vieram à tona, a purificação veio em forma de lágrimas.  É incrível como a arte serve como catarse para emoções delicadas. E que fique claro que de forma alguma minhas palavras são um m...

O Carteiro e O Poeta - Antonio Skármeta

O Carteiro e o Poeta, do chileno Antonio Skármeta, foi uma releitura que fiz recentemente. A primeira vez que o li foi há muitos anos – pode colocar aí uns quase 20. Lembro de ter gostado mas não recordava muita coisa da história – e eu nem tinha mais o livro. Até que vi uma nova edição pela Editora Record e resolvi adquirir. Aí sim lembrei o porquê de ter gostado tanto da leitura. Mario Jimenez tem que dar um jeito na vida e consegue um emprego de carteiro em um o local onde apenas o ilustre morador Pablo Neruda é destinatário de correspondências. Com as visitas diárias do protagonista à casa do poeta, aos poucos uma amizade sincera surge entre eles com direito a Neruda como padrinho de casamento do carteiro. O livro é curto e envolve o leitor: tem o drama da paixão de Mario por Beatriz e o processo de conquista da garota com ajuda do poeta; tem o tom jocoso do narrador; tem política porque a história se desenvolve entre a eleição de Allende e sua morte com o golpe de Pinochet; tem a ...

Esboços Naturais - Cavito

Qualquer tentativa de capturar ou descrever uma pessoa revela-se uma tarefa intricada. E é partindo dessa premissa que Cavito elabora as histórias de Esboços Naturais, livro de estreia do autor.  Nas sete narrativas que compõem o livro, o autor percorre pelos personagens como quem vagueia por diferentes cenários. No conto Foz, o protagonista tenta elaborar a representação de uma paisagem, mas percebe nisso uma dificuldade porque percebe que tudo está em constante movimento. Se a natureza humana é dinâmica, então o máximo a que se pode chegar ao descrevê-la é um esboço, tênues linhas que percorrem e misturam-se a um emaranhado de elementos.    Durante a leitura de Esboços Naturais, ao pensar que toda ação humana sofre o impacto da experiência, da materialidade da vivência, lembrei de uns versos da Mar Becker que dizem “viajar sozinha (por algum interior do mundo) só para chegar a isto: o momento em que não se pode mais decidir se és tu cruzando pelas vastidões, ou se são a...