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Dois Irmãos - Milton Hatoum

Dois Irmãos foi o primeiro livro que li de Milton Hatoum e foi uma leitura extremamente prazerosa. A partir das memórias de um personagem, desde a infância até a vida adulta, o autor transita por diversos temas e tece a história de forma tão envolvente que eu não conseguia me desgrudar do livro.

A narrativa em primeira pessoa é componente essencial para a imersão na história. Em post de rede social, o autor Luca Brandão escreve que “lembrar não é voltar ao passado. É construir uma ponte de palavras para que o passado faça sentido no presente”. Assim, Nael, o narrador, ao reviver as lembranças procura entender seu lugar na casa em que nasceu e cresceu. A ambiguidade de ser de uma família sem realmente pertencer a ela é um fato que permeia e concede certa tristeza às recordações de Nael. Do quartinho que dividia com sua mãe, Domingas, no fundo da casa de Zana e Halim, ele acompanha a história daquela família.

O marco espacial da história é um elemento interessante porque desloca a narrativa para a região norte do país, especificamente Manaus. O ciclo da borracha na região amazônica atraiu quem procurava uma possibilidade de vida melhor. Ali chegaram pessoas de diferentes lugares do país principalmente do Nordeste. De outros países também vieram imigrantes que ouviram falar do enriquecimento a partir da exploração da seringueira. E é nessa dinâmica que do Líbano partem o tio de Halim e o pai de Zana com destino à Manaus por volta de 1920.

No Brasil, Halim trabalhou como mascate até conhecer Zana, garçonete no restaurante do pai. Depois de um tempo de casados, venderam o restaurante e abriram uma loja que comercializava os produtos que antes Halim andava para vender. O casal teve 3 filhos, os gêmeos Omar e Yaqub e Rânia, e é em torno das desavenças entre os dois primeiros que o livro gira. Os gêmeos foram estranhos um ao outro desde pequenos, e a predileção da mãe por Omar só aumentou a rusga entre eles. Os conflitos tomaram vulto de tal forma que os irmãos foram separados na adolescência com Yaqub mandado para o Líbano e Omar permanecendo no Brasil. Esse afastamento causou uma ruptura na estrutura da família que nunca será restabelecida e que é inflamada quando Yaqub retorna para Manaus anos depois.

Junto ao drama familiar, Hatoum trata de temas socioeconômicos da região (me lembrou muito de Jorge Amado). Com o fim da exploração da borracha o número de desempregados subiu o que implicou questões como a falta de moradia. É nesse contexto que surge a Cidade Flutuante de Manaus, um agrupamento de casas e comércios levantado sobre o Rio Negro. Tal cenário aparece com frequência em Dois Irmãos demonstrando o cotidiano de moradores do local. 

Na personagem de Domingas o autor aborda um tema bastante indigesto e que perdura. Domingas era órfã e foi levada ainda criança de sua aldeia para uma missão na capital onde foi catequizada e ensinada a servir. Quando estava com uns 12 anos foi vendida ao casal Zana e Halim. Pouco mais velha que o Omar e Yaqub, a personagem é tragada para dentro da atribulada vida da casa.

Nael ao narrar suas memórias procura entender seu papel dentro da família assim como o autor questiona o papel daquela região periférica do país dentro da dinâmica de modernização que ocorria na parte central e no Sudeste. Além disso, Milton Hatoum tece tramas dentro do livro que enriquecem a história e conferem mais profundidade. Destaque para o professor Antenor de Laval, sujeito boêmio e dito comunista que foi espancado em frente dos alunos em praça pública, preso e "desparecido" durante a Ditadura Militar.

Dois Irmãos é um livro rico e envolvente que te acompanha por dias, que assenta aos poucos. Foi um livro que mexeu comigo e que, definitivamente, entrou para a minha lista de indicações.


Dados:
Livro: Dois Irmãos
Autor: Milton Hatoum
Ano de lançamento: 2000
Ano da edição lida: 2022
Editora: Companhia das Letras

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