Começo esse texto dizendo que
gostaria muito de ver o livro Assim na Terra Como Embaixo da Terra transformado
em um longa-metragem. Tive uma experiência muito gráfica do livro da escritora
Ana Paula Maia e do início ao final da leitura um filme passou na minha mente.
O livro Assim
na Terra Como Embaixo da Terra, finalista do Prêmio Booker Prize 2026, mescla o
sobrenatural com uma realidade palpável. A narrativa desenvolve-se dentro de
uma colônia penal que está prestes a ser fechada em um espaço-tempo não
identificado onde restam menos de 10 detentos, um policial e um administrador. Um
dos elementos gráficos mencionado acima aparece logo no início quando Bronco
Gil, um dos presos, chega com um corpo de javali. Toda a cena e a conversa com
Melquíades, o administrador, demonstram a familiaridade com a violência e a
morte. Tudo muito vívido.
Os
sujeitos do local, os presos e os outros dois, estão aguardando a chegada de um
enviado da Justiça que fará uma avaliação da colônia e será responsável pela
transferência dos detentos para outro lugar. O leitor entra nesse meio tempo e
acompanha a angústia da espera por esse personagem que aparece tarde demais na
história. Nesse ponto, a autora trabalha bem os personagens e as responsabilidades
de cada um nos trabalhos internos da colônia que servem de delimitadores entre a
humanidade daqueles homens e o papel animalesco imposto a eles seja pela brutalidade
da vida, seja pelo apagamento social.
Nos
detentos que restam há um traço de amoralidade. Os motivos dos crimes cometidos
por eles são apresentados, mas não com um crivo de julgamento. É como se os
atos cometidos seguissem a ordem natural da vida daqueles homens: “São todos
homens de sangue. Em sua maioria, matando para os outros, como abatedores em um
matadouro.”
A
violência é elemento comum. O local que abriga a colônia penal era uma antiga
fazenda com mão de obra escrava. A história de Ana Paula Maia conta que ali era
conhecido como o Calvário Negro dado o número de cativos torturados e mortos
cujas ossadas, amarradas pelos pulsos e tornozelos, foram encontradas pelos
detentos muitos anos depois. Esse é um dado histórico que se mistura à
tragédias posteriores que geraram lendas sobre o lugar.
Esse
ambiente de infortúnios e maldade foi escolhido e adaptado para funcionar como
uma colônia penal. No início muitos presos foram transferidos para lá com a
finalidade de serem reeducados, mas com o tempo o local tornou-se um campo de
extermínio: “O confinamento de homens assemelha-se a um curral de animais. O
gado é abatido para se transformar em alimento; os homens, por sua vez, são
abatidos para deixarem de existir.” Melquíades, o administrador, tinha seu próprio
sistema de reeducação dos detentos pautado na coerção e assassinato e quando
soube do fechamento da colônia foi dominado pela maldade e pela loucura e
colocou em prática um plano macabro.
Assim na
Terra Como Embaixo da Terra lida com a violência institucionalizada que permeia
a sociedade brasileira há séculos. A figura de Melquíades e a própria colônia
penal representam a parte concreta da brutalidade enquanto quem está do lado de
fora dos muros é conivente com o que acontece do lado de dentro.
Dados:
Livro: Assim
na Terra Como Embaixo da Terra
Autora:
Ana Paula Maia
Ano de
lançamento: 2017
Editora
Record
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