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Os Perigos de Fumar na Cama - Mariana Enriquez

 Escrever – ou falar – de Mariana Enriquez é sempre um prazer para mim. Meu primeiro contato com a autora foi no livro de contos As Coisas que Perdemos no Fogo. Havia algo nas desconfortáveis narrativas que me prendia. Anos depois li o romance Nossa Parte de Noite que me arrebatou. Não sei bem como explicar a fascinação que a escrita de Enriquez exerce sobre mim. É um misto de espanto e curiosidade.

Mariana não se encaixa no terror mais comum (já comentei aqui no blog um pouco acerca deste estilo quando escrevi sobre o livro Coelho Maldito de Bora Chung). A argentina traz narrativas insólitas e incômodas que mesclam violências, crenças regionais e o grotesco – incluindo uma dose de escatologia – com o sobrenatural. E nesta linha que está o livro de doze contos Os Perigos de Fumar na Cama do qual tratarei neste texto. E, como quase toda publicação de contos, há uma heterogeneidade entre as histórias, por isso vou me limitar aqui aos que me chamaram mais a atenção. 


Em “O Carrinho” um homem empurrando um carrinho de supermercado cheio de material reciclável chega em um bairro de classe média, tem uma atitude que desagrada aos moradores e é expulso com gritos e violência. Após o episódio, coisas estranhas começam a acontecer aos habitantes do local. A ruína socioeconômica da sociedade seria uma consequência da degeneração da humanidade, da falta de compaixão? Essa é uma das reflexões que o conto joga para o leitor.

Uma das narrativas que mais mexeram comigo foi “Rambla Triste” e é onde Enriquez traz o que faz de melhor: misturar o horror da vida com o sobrenatural. Nele, o leitor acompanha uma história acerca de Barcelona sob o olhar da argentina Sofía. Em uma visita a um casal de amigos igualmente portenhos, ela presencia e ouve histórias que alimentam um preexistente desagrado seu em relação à cidade espanhola. Neste conto, a autora aborda assuntos bem reais como o processo de gentrificação da cidade – que por si só já é bastante violento – e a limpeza social das áreas turísticas com policiais multando e caminhões jogando mangueiradas d’água em quem se sentasse nas praças. O auge da narrativa e ponte com o sobrenatural vem de uma lenda que envolve a Rambla Raval e uma rede de pedofilia em Barcelona. É um conto de tirar o fôlego.

Em “Garotos Perdidos”, Mechi trabalha em um arquivo de registros de crianças perdidas ou desaparecidas. Em dado momento, boa parte das crianças e adolescentes reaparecem como se o tempo não tivesse passado para eles. Algumas pessoas não percebem – ou fingem não perceber – que há algo de errado com esse retorno; outras sim e, entre elas, Mechi. Neste conto, a autora utiliza o oculto para tratar do tráfico sexual de crianças e adolescentes. 

Por último, no segundo melhor conto do livro na minha opinião, “Quando Falávamos com os Mortos”, um grupo de garotas adolescentes jogam com um tabuleiro ouija. O que à princípio era uma simples brincadeira desemboca em cenas típicas de um filme de terror. Neste conto, o horror da ditadura argentina se mescla com os espíritos invocados no ritual ouija.

Sem dúvidas, Os Perigos de Fumar na Cama é um bom livro para começar a entender a escrita de Mariana Enriquez na qual medos reais e sobrenaturais combinam-se criando tramas instigantes. E, por ser uma coletânea de textos, a leitura é mais dinâmica e é possível identificar os elementos característicos do estilo literário da autora.


Dados
Livro: Os Perigos de Fumar na Cama
Autora: Mariana Enriquez
Ano de lançamento: 2009/ Publicação no Brasil: 2023
Tradução: Elisa Menezes
Editora: Intrínseca



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