Pular para o conteúdo principal

Postagens

Ópera dos Mortos - Autran Dourado

Ópera dos Mortos chamou minha atenção pelo nome que carrega, e depois que li a sinopse tive a certeza de que eu gostaria muito da leitura. E assim foi: arrebatador. Com uma escrita lindíssima que parece mais uma dança, o mineiro Autran Dourado presenteia o leitor com uma história triste contada de uma forma poética. Quem lê sente as agruras dos personagens, mas é como se ao mesmo tempo o lirismo da escrita fizesse um carinho. O autor deixa bastante evidente no início do livro o jeito mineiro de contar uma história – o conhecido “causo” contado de forma muito tranquila e, geralmente, detalhada. Pode ser de assombração, de uma briga ou de uma história de família que é caso de Ópera dos Mortos. E é incrível como uma atmosfera mineira é transmitida pelas páginas. É como se durante a leitura o leitor fosse transportado para alguma cidade histórica com seu centro de ruas estreitas de paralelepípedos, Largos e igrejas. A escrita imagética ajuda na composição do momento histórico em que a na...
Postagens recentes

Inventário de Predadores Domésticos - Verena Cavalcante

  "Peço desculpas, de verdade. Eu sei que doeu." São com essas palavras que Verena Cavalcante encerra a seção de agradecimentos ao final do livro, e resolvi começar o texto com essa declaração da autora para que fique de aviso de que temas muito sensíveis são tratados ao longo dos 26 contos que compõem Inventário de Predadores Domésticos. As narrativas do livro são viscerais, cruas e deixam o leitor desconcertado a todo momento. É sempre um respiro fundo para dar conta de casos tão doloridos. As vozes que contam as histórias são em sua maioria infantis e, por isso mesmo, vêm em uma linguagem muito peculiar e marcada pela oralidade, além de carregada de regionalismos. Nos contos há uma mistura da inocência pueril e de medo profundo diante das situações violentas experenciadas pelos personagens. São infâncias marcadas pela pobreza, pela brutalidade, pelas consequências da falta de amparo e, principalmente, pelo abuso de quem deveria protegê-las. O medo que alguns pequenos ani...

Nós - Ievguêni Zamiátin

  O livro do texto da vez é um que você, leitor, certamente encontrará em listas sobre obras distópicas, embora, muito provavelmente, ele não estará entre as mais lembradas. Trata-se de Nós, escrito pelo russo Ievguêni Zamiátin entre os anos de 1920 e 1921 e publicado em 1924. No livro, uma espaçonave, a INTEGRAL, será lançada e o governo do Estado Único convida a quem quiser escrever para os povos siderais, que o faça para ser enviado. É desse ponto que o leitor começa a acompanhar a história do protagonista, D-503, que inicia um diário cuja finalidade é demonstrar a superioridade da estrutura social em que ele vive. [1] O Estado Único é uma forma de governo totalitária alcançada após a denominada Guerra dos Duzentos Anos, ao final da qual o Muro foi erguido para proteger os habitantes dessa nova ordem social dos selvagens imaginativos e com alma. Como você deve ter percebido mais acima, o protagonista não tem um nome, mas sim uma letra seguida de um número. E assim acontece ...

Os Perigos de Fumar na Cama - Mariana Enriquez

 Escrever – ou falar – de Mariana Enriquez é sempre um prazer para mim. Meu primeiro contato com a autora foi no livro de contos As Coisas que Perdemos no Fogo. Havia algo nas desconfortáveis narrativas que me prendia. Anos depois li o romance Nossa Parte de Noite que me arrebatou. Não sei bem como explicar a fascinação que a escrita de Enriquez exerce sobre mim. É um misto de espanto e curiosidade. Mariana não se encaixa no terror mais comum (já comentei aqui no blog um pouco acerca deste estilo quando escrevi sobre o livro Coelho Maldito de Bora Chung ). A argentina traz narrativas insólitas e incômodas que mesclam violências, crenças regionais e o grotesco – incluindo uma dose de escatologia – com o sobrenatural. E nesta linha que está o livro de doze contos Os Perigos de Fumar na Cama do qual tratarei neste texto. E, como quase toda publicação de contos, há uma heterogeneidade entre as histórias, por isso vou me limitar aqui aos que me chamaram mais a atenção.  Em “O Carri...

O Filhote e a Maçã - César Augusto Pereira

  O ato de escrever e criar uma história é admirável. Arquitetar todo um universo com mitologia, nomenclatura e demais elementos de um mundo abstrato, é ainda mais surpreendente e engenhoso. Um exemplo disso é o livro de César Augusto Pereira, O Filhote e a Maçã, que ao que tudo indica é o primeiro de uma trilogia que vai narrar as aventuras dos habitantes de Ventre. No livro, dividido em cinco arcos mais prólogo e epílogo, o leitor acompanha a história de Nuiak, um guepardo adolescente que encontra na floresta de Arvoreiro Acima um artefato desconhecido para ele e para os membros do clã ao qual pertence. Embora exista uma lenda sobre um fruto sagrado – capaz de curar todo mal, físico ou mental, bem como de conceder ao seu portador a resposta para qualquer pergunta –, os anciãos do seu grupo incubem o felino de levar o objeto a outro local de Ventre para que possa ser examinado e, dessa forma, esclarecer do que se trata. Deste ponto em diante o leitor começa a seguir duas narrativa...

Orgulho e Preconceito - Jane Austen

É uma verdade universalmente reconhecida que Orgulho e Preconceito é um dos romances românticos ingleses mais famosos. Jane Austen, com uma narrativa elegante, faz o leitor suspirar do lado de cá das páginas. A bem da verdade, esse é outro caso de livro que ficou um longo tempo na estante – devo ter ele há uns 10 anos – e, assim como na saga do Senhor dos Anéis, eu vi o filme antes de ler o livro. O recurso narrativo que engaja o livro é conhecido na literatura: um exemplo clássico do enemies to lovers (de inimigos a amantes). Mas, apesar de ser um mote comum, a autora trabalha, em camadas mais profundas, aspectos históricos e sociais dentro da narrativa. E esse é um dos elementos que abrilhanta ainda mais a história. A protagonista Elizabeth Bennet e suas irmãs compartilham uma mesma questão com outras personagens de Austen: o casamento como forma de estabilidade social. A autora faz questão de frisar a crueldade e sexismo das leis de transmissão de herança na Inglaterra que dei...

As Cidades Invisíveis - Italo Calvino

Se você, leitor, visitar qualquer cidade turística vai se deparar com várias pessoas tirando fotos em seus celulares – e eu me incluo nesse grupo. E, se você botar reparo, vai perceber que muitos só querem a melhor foto, a mais bonita para a rede social. Na contrapartida desse movimento, a linguagem simbólica de As Cidades Invisíveis convida o leitor/turista não apenas a ver o local, mas a viver a experiência completa que uma viagem pode oferecer - e essa é apenas uma das camadas do livro. À primeira vista, o livro de Ítalo Calvino pode parecer uma jornada física real. Porém, quem está do outro lado das páginas vai percebendo que a imersão estimulada é interior. Dizem que ninguém volta igual de uma viagem, principalmente, se for um mergulho em si mesmo. Brinquei com um amigo que ler As Cidades Invisíveis pareceu uma sessão de terapia analítica. A abordagem psicológica das pequenas histórias torna a leitura mais densa e monótona mas nem de longe menos enriquecedora. Na verdade, As C...