Ópera dos Mortos chamou minha atenção pelo nome que carrega, e depois que li a sinopse tive a certeza de que eu gostaria muito da leitura. E assim foi: arrebatador. Com uma escrita lindíssima que parece mais uma dança, o mineiro Autran Dourado presenteia o leitor com uma história triste contada de uma forma poética. Quem lê sente as agruras dos personagens, mas é como se ao mesmo tempo o lirismo da escrita fizesse um carinho. O autor deixa bastante evidente no início do livro o jeito mineiro de contar uma história – o conhecido “causo” contado de forma muito tranquila e, geralmente, detalhada. Pode ser de assombração, de uma briga ou de uma história de família que é caso de Ópera dos Mortos. E é incrível como uma atmosfera mineira é transmitida pelas páginas. É como se durante a leitura o leitor fosse transportado para alguma cidade histórica com seu centro de ruas estreitas de paralelepípedos, Largos e igrejas. A escrita imagética ajuda na composição do momento histórico em que a na...
"Peço desculpas, de verdade. Eu sei que doeu." São com essas palavras que Verena Cavalcante encerra a seção de agradecimentos ao final do livro, e resolvi começar o texto com essa declaração da autora para que fique de aviso de que temas muito sensíveis são tratados ao longo dos 26 contos que compõem Inventário de Predadores Domésticos. As narrativas do livro são viscerais, cruas e deixam o leitor desconcertado a todo momento. É sempre um respiro fundo para dar conta de casos tão doloridos. As vozes que contam as histórias são em sua maioria infantis e, por isso mesmo, vêm em uma linguagem muito peculiar e marcada pela oralidade, além de carregada de regionalismos. Nos contos há uma mistura da inocência pueril e de medo profundo diante das situações violentas experenciadas pelos personagens. São infâncias marcadas pela pobreza, pela brutalidade, pelas consequências da falta de amparo e, principalmente, pelo abuso de quem deveria protegê-las. O medo que alguns pequenos ani...